sexta-feira, 8 de junho de 2018





"Então, para compreendermos os inúmeros problemas que cada um de nós tem, não é essencial que haja autoconhecimento? E esta é uma das coisas mais difíceis, estarmos atentos a nós mesmos - o que não significa um isolamento, um afastamento. É óbvio que é essencial que nos conheçamos a nós mesmos; mas conhecer-se a si mesmo não implica que haja um afastamento da relação. E certamente seria um erro pensarmos que nos podemos conhecer a nós mesmos profunda, completa e perfeitamente, através do isolamento, através da exclusão, ou indo a um psicólogo, ou a um sacerdote; ou que podemos aprender a conhecermo-nos a nós mesmos através de um livro. O autoconhecimento é, obviamente, um processo, não um fim em si próprio; e, para nos conhecermos, devemos estar atentos a nós mesmos quando agimos, o que é estar em relação. Vocês descobrem-se a vós mesmos não no isolamento, não no afastamento, mas na relação - na relação com a sociedade, com a vossa mulher, o vosso marido, o vosso irmão, com a humanidade; mas descobrirem como reagem, quais são as vossas respostas requer uma extraordinária atenção por parte da mente, uma percepção apurada." - Jiddu Krishnamurti

quinta-feira, 7 de junho de 2018





"O sentido do autodomínio, o ser capaz de resistir às tempestades emocionais que as sacudidelas da Fortuna traz consigo, em vez de ser «escravo das paixões», é considerado uma virtude desde os tempos de Platão. A antiga palavra grega para o definir era sophrosyne, «cuidado e inteligência na condução da própria vida; um equilíbrio temperado de sabedoria». Os Romanos e a Igreja cristã primitiva chamavam-lhe temperantia, temperança, a contenção dos excessos emocionais. O objectivo é o equilíbrio, não a supressão emocional: todos os sentimentos têm o seu valor e significado. Uma vida sem paixão seria um triste deserto de neutralidade, separado e isolado das riquezas da própria vida. Mas, tal como Aristóteles observou, o que se pretende é emoção apropriada, sentimentos proporcionais às circunstâncias. Quando as emoções são demasiado abafadas, criam monotonia e distância; quando escapam ao controlo, quando são excessivamente extremas e persistentes, tornam-se patológicas, como uma depressão imobilizadora, uma ansiedade esmagadora, uma raiva furiosa, uma agitação maníaca.

Controlar as emoções perturbadoras é a chave para o bem-estar emocional; os extremos - emoções que se manifestam demasiado intensamente ou durante demasiado tempo - minam a nossa estabilidade. Não que devamos, evidentemente, sentir apenas um tipo de emoção. Ser sempre feliz sugere de alguma maneira a «moleza» um tanto bacoca daqueles emblemas com rostos sorridentes que, na América, conheceram uma breve moda nos anos 70. O sofrimento pode dar uma contribuição muito positiva para uma vida criativa e espiritual; como os antigos diziam, o sofrimento tempera a alma. 

Os altos e baixos dão sabor à vida, mas precisam de ser equilibrados. Nos cálculos do coração, é a relação entre emoções positivas e negativas que determina o sentimento de bem-estar." - Daniel Goleman

quarta-feira, 6 de junho de 2018





"Num dia destes, fui a uma livraria comprar um livro chamado O ministério da felicidade suprema. A livreira respondeu-me, lacónica: 

- Não há!

- Já esgotou? - perguntei, surpreendido.

- Não sei se esgotou - disse-me resoluta. Mas já não há.

- Mas ainda ontem estava nos tops - argumentei, já sem jeito...

- A felicidade suprema está sempre nos tops, meu amigo - respondeu enfadada.

- Mas, deixe-me recapitular. Já não há, ainda não há ou nunca houve? (perguntei eu, querendo saber se ela estaria a falar do livro ou da felicidade... suprema)

- Isso não sei dizer. Mas não há!

- Ok - disse eu. Seja como for, indica-me, por favor, onde posso encontrar o livro?

- Na prateleira número dois.

- (Sorri-lhe com sarcasmo.) Então, lá vou eu à procura da felicidade suprema - piquei-a. Obrigado!

E fui buscar a tal "felicidade". Se ela fosse tão simples de encontrar, se a tomássemos sempre na sua "versão" suprema, ou se delegássemos a sua procura num ministério da felicidade, a vida seria um longo fim de semana.

Há quem ache que a felicidade não existe. Como a tal livreira. Há quem ache que é uma miragem. Há quem ache que é um luxo pior do que um relógio Patek Philippe. Com a particularidade dela não se comprar. A felicidade não é uma patetice. É verdade. Mas descobrimo-la, muitas vezes, quando a um momento pateta juntamos um tremendo sentimento de liberdade e acabamos a rir. Tudo, mas tudo, "pela mão" de alguém. De um "nosso alguém".

Será a felicidade um momento de exaltação? É. Mas quase tenho medo de dizer isso muito alto, tais são as pessoas exaltadas com que me cruzo todos os dias e que me dão um arrepio por serem, a olhos vistos, tudo menos felizes.

Porque é que na maioria das histórias o "e foram felizes para sempre" se dá por alturas do casamento? Porque depois nunca se sabe. É assim desde a Cinderela à Branca de Neve, por exemplo. Como foi assim, também, com o prato de esparguete que uniu a Dama e o Vagabundo. É verdade que, hoje, todos nós assumimos que um casamento por companheirismo é uma espécie de solidão assistida. Mas que as pessoas - então, depois de casadas - continuem a trabalhar para a felicidade já é outra coisa. Às vezes, parece-me a mim, as pessoas acreditam na felicidade enquanto dádiva. (O que, pensando bem, não é tão tolo assim.) Mas são levadas a supor que para uma dádiva não se trabalha. Espera-se sentado até que ela nos caia no colo. E isso estraga tudo. Pode a felicidade, que nos traz o sagrado em vida, ser um golpe de sorte? Nunca é. Seguramente.

E, no entanto, a felicidade é um estado de comunhão entre duas pessoas. Não ser possível ser feliz para sempre é uma forma batoteira de falar verdade. A comunhão não é um estado interminável. Mas, por mais que em muitas relações seja realmente uma miragem, há relações em que a comunhão vai das convicções aos gestos, vai da forma telepática como se comunica à sexualidade, vai das trocas amorosas à ironia. É verdade que não se pode ser ininterruptamente feliz. Mas a exaltação da felicidade, por mais que seja rara, acontece. E, quando existe, aprofunda-se mais e mais à medida que duas pessoas se conhecem e se despem por dentro. Isto é, pode não ser. A felicidade suprema.  Mas, sim, há quem seja feliz para sempre." - Eduardo Sá

terça-feira, 5 de junho de 2018





"Aquilo que dizemos transforma-se na casa onde vivemos." - Hafiz


"Nasci no contexto de uma sábia e antiga tradição chamada Toltec. O meu avô era um velho ngual (xamã) e esforcei-me durante toda a minha juventude para merecer o respeito dele.

Quando era adolescente, queria impressioná-lo com as opiniões que tinha sobre tudo o que aprendia na escola. Falava-lhe do meu ponto de vista em relação à injustiça que há no mundo, à violência e ao conflito entre o bem e o mal. O meu avô ouvia pacientemente, o que me incentivava a falar ainda mais. A certa altura, reparei que esboçara um sorriso ao dizer: "Miguel, essas teorias que aprendeste são muito boas, mas tudo o que me disseste até agora é apenas uma história. Não significa que seja verdade."

Como é evidente, senti-me mal com o comentário e tentei defender o meu ponto de vista, mas, logo de seguida, o meu avô continuou: "A maioria das pessoas acredita que existe um grande conflito no universo - o conflito entre o bem e o mal. Bom, esse conflito existe apenas na mente humana. Não é verdade para o resto da natureza. E o verdadeiro conflito que habita a nossa mente é o conflito entre a verdade e a mentira. O bem e o mal são o resultado desse conflito. Acreditar na verdade origina bondade, amor, felicidade. Acreditar em mentiras e defender essas mentiras resulta naquilo a que chamamos maldade. É isso que cria a injustiça e a violência, o drama e o sofrimento, não só na sociedade, mas também no indivíduo."

Hum... O que o meu avô disse era lógico, mas não acreditei nele. Como poderiam todos os conflitos e todo o sofrimento do mundo serem o resultado de algo tão simples? Tinha de ser mais complicado do que isso.

"Miguel, todo o drama que existe na tua vida é a consequência de acreditares em mentiras. E a primeira mentira em que acreditas é esta: não sou suficientemente bom, não sou perfeito. Todas as pessoas nascem perfeitas e todas morrerão perfeitas porque só a perfeição existe. Mas se acreditares que não és suficientemente bom, seja feita a vossa vontade, porque esse é o poder e a magia da tua fé. Com essa mentira, começas a procurar uma imagem da perfeição que nunca alcançarás. Procuras amor, justiça, tudo aquilo que acreditas não possuir, sem saberes que tudo o que procuras já existe dentro de ti. A Humanidade está da maneira que está porque todos acreditamos em mentiras que existem há milhares de anos. Reagimos a essas mentiras com raiva e violência, mas são apenas mentiras."

Estava a pensar como poderia saber a verdade quando o meu avô disse: "Conseguimos percepcionar a verdade com os nossos sentimentos, mas assim que tentamos descrevê-la por palavras, acabamos por distorcê-la, e ela deixa de ser verdade. É a nossa história. Imagina que Pablo Picasso tinha pintado um retrato teu. Dir-lhe-ias certamente 'eu não sou assim', e Picasso responderia: 'claro que és, é assim que eu te vejo'. Para Picasso, seria verdade; ele estaria a expressar aquilo que percepciona. Todas as pessoas são artistas - contadores de histórias com um ponto de vista único. Usamos palavras para pintar um retrato de tudo o que testemunhamos. Inventamos histórias e, tal como Picasso, distorcemos a verdade; mas, para nós, é a verdade. Quando conseguimos perceber isto, deixamos de tentar impor a nossa história aos outros ou de defender aquilo em que acreditamos. Enquanto artistas, respeitamos o direito que todos os artistas têm de criar a sua própria arte." 

Nesse momento, o meu avô deu-me a oportunidade de me aperceber de todas as mentiras em que acreditamos. É por acreditarmos nessas mentiras que nos julgamos, que nos achamos culpados e que nos castigamos. Sempre que temos um conflito com os nossos pais, os nossos filhos, a pessoa que amamos, é porque acreditamos nessas mentiras, e eles também. 

Quantas mentiras ouve na sua cabeça? Quem está a julgar, de quem está a falar? Se não gosta da vida que tem é porque a voz que existe dentro de si não lhe permite apreciá-la. Chamo-lhe a voz do conhecimento, porque nos diz tudo o que sabemos, e esse conhecimento está contaminado por mentiras. 

Bom, se cumprir duas regras, as mentiras não sobreviverão ao cepticismo e irão simplesmente desaparecer. Primeiro, ouça a sua história, mas não acredite em si mesmo, porque agora sabe que a sua história é, maioritariamente, ficção. Segundo, ouça as outras pessoas a contarem as histórias delas, mas não acredite nelas. A verdade sobrevive ao nosso cepticismo, mas as mentiras só sobrevivem se acreditarmos nelas.

O simples facto de estarmos conscientes das mentiras que existem já nos faz ter consciência de que a verdade também existe. E ao limparmos as mentiras em que acreditamos sobre nós próprios, mudaremos as mentiras em que acreditamos sobre todas as outras pessoas. Só a verdade poderá levar-nos de volta ao amor, e este é um grande passo em direcção à cura da mente humana." - Don Miguel Ruiz

segunda-feira, 4 de junho de 2018





"Não sei se alguma vez ouviram um pássaro. Ouvir alguma coisa exige que a nossa mente esteja silenciosa - não um silêncio místico, silêncio simplesmente. Estou a dizer-vos algo e, para me ouvirem, têm de estar silenciosos, e não com todo o tipo de ideias a zunirem na vossa mente. Quando olham para uma flor, olham para ela, sem estarem a dar-lhe um nome, sem a estarem a classificar, sem dizerem que ela pertence a determinada espécie - quando o fazem, deixam de a ver. Assim, o que vos digo é que ouvir é uma das coisas mais difíceis - ouvir o comunista, o socialista, o deputado, o capitalista, qualquer pessoa, a vossa mulher, os vossos filhos, o vosso vizinho, o condutor do autocarro, o pássaro - apenas ouvir. É só quando ouvem sem nenhuma ideia, sem pensamento, que estão em contacto directo; e ao estarem em contacto percebem se aquilo que o outro está a dizer é verdadeiro ou falso; torna-se desnecessário discutir." - Jiddu Krishnamurti

domingo, 3 de junho de 2018





"Conhecer as nossas próprias emoções. A autoconsciência - o reconhecer um sentimento enquanto ele está a acontecer - é a pedra-base da inteligência emocional. Ser capaz de controlar momento a momento as sensações é crucial para a introspecção psicológica e o autoconhecimento. A incapacidade de reconhecer as nossas próprias sensações deixa-nos à mercê delas. As pessoas que têm uma certeza maior a respeito dos seus sentimentos governam melhor as suas vidas, tendo uma noção mais segura daquilo que realmente sentem a respeito das decisões que são obrigados a tomar, desde com quem casar a que emprego aceitar." - Daniel Goleman

sábado, 2 de junho de 2018





"- Quando encontramos um amor as coisas parecem acontecer sempre cedo. De surpresa. Apanham-nos desprevenidos. Queríamos muito que tudo acontecesse mas, quando acontecem, temos sempre a sensação que não estávamos à espera dele ou, mesmo, preparados para ele. Talvez daquela forma. Justamente com aquela pessoa. Com os incidentes que só mesmo aquele amor (e mais nenhum) nos traz. Depois, descobrimos que ele não é só um amor. É, mais, "o amor". E temos a impressão que é tão inimitável e é tão precioso que aquele amor é para a vida toda. Como se ele derrubasse os limites do tempo e, por causa disso, fosse para sempre. Para todo o sempre! E perguntamos porque é que aquela pessoa chegou tão tarde à nossa vida. (Sorri...) Eu acho que o tempo troca sempre as voltas a todos os apaixonados!

Mas, às vezes, há pessoas que chegam tarde, mesmo. Pela idade que temos. Pelas barreiras geográficas que nos separam. Pelos compromissos que nos condicionam. Por tudo aquilo que nos distancia. Pelos encargos que nos prendem. Eram pessoas que tinham tudo para ser "o nosso amor". E deixam uma "avenida larga" onde talvez só existisse um beco. E passam a ter um lugar especialíssimo na primeira fila do nosso coração. São pessoas a quem podíamos, com verdade, dizer: "Tenho tanta pena que tenhas chegado tão tarde à minha vida!" Porque chegaram tarde, realmente. Tarde para tudo aquilo que a sua presença na nossa vida nos pede que sejamos capazes de concretizar para que sejam "nossas".

O amor troca-nos as voltas e derruba barreiras, é verdade. Mas há barreiras que, contra a nossa vontade, nos derrubam para o amor. E o tornam - para sempre? - tarde para nós." - Eduardo Sá