sexta-feira, 7 de julho de 2017
"A vida está cheia de possibilidades de fruição, desde que não nos apeguemos a nenhuma delas.
Não há nada mais belo do que apreciar o que existe lá fora: as flores, a luz, objectos em movimento como as folhas das árvores. Chegará o momento em que tudo isto deixará de existir. Neste universo tudo tem o seu fim e, dentro de cinquenta ou cem anos, talvez tenhamos destruído de tal forma o planeta que a cor, a luz ou as árvores não sejam as mesmas. Ou talvez, o tenhamos feito implodir.
Quando estamos lúcidos, apreciamos o milagre da vida lá fora e essa subtil apreciação basta para nos encher o coração: nem namorados, nem empregos perfeitos... basta a luz do sol ao amanhecer.
Por isso, ter uma mente saudável implica não ter apego a nada nem a ninguém. A felicidade advém de não criarmos necessidades e de gozarmos daquilo que cada momento tem para nos oferecer." - Rafael Santandreu
quinta-feira, 6 de julho de 2017
"Por vezes, as pessoas consideram que quando meditam não devem ter nenhum pensamento ou emoção; e quando surgem pensamentos ou emoções, ficam aborrecidas e exasperadas consigo próprias por julgarem que falharam. Nada pode estar mais longe da verdade. Há um ditado tibetano que diz: «É absurdo pedir carne sem ossos e chá sem folhas.» Enquanto tiver mente, haverá pensamentos e emoções.
Tal como o oceano tem ondas ou o Sol tem raios, também a radiância da própria mente consiste nos seus pensamentos e emoções. O oceano tem ondas, no entanto, ele não é particularmente perturbado por elas, uma vez que elas são a sua verdadeira natureza. As ondas elevam-se, mas para onde vão? De volta para o oceano. E de onde vêm as ondas? Do oceano. Da mesma forma, os pensamentos e as emoções são a radiância e a expressão da verdadeira natureza da mente. Eles emergem dela, mas onde se dissolvem? Na própria mente. O que quer que surja, não o encare como um problema específico. Se não reagir de modo impulsivo e se se limitar a ser paciente, isso acabará por assentar de novo na sua natureza essencial." - Sogyal Rinpoche
quarta-feira, 5 de julho de 2017
"O amor é o amor. É uma actividade emocional, uma atitude, uma fragrância, uma essência. O amor é o amor. Quando se ama, partilha-se, inclusive, o tempo, que por vezes regateamos tanto aos outros nesta era de pressa e ansiedade inúteis. O amor é compaixão, e a compaixão permite-nos identificarmo-nos com a dor alheia e tentar aliviá-la, assim como nos leva a desenvolver a alegria pelo sucesso e bem-estar dos outros. O amor transforma-se em antídoto do ódio, contra o rancor, a malevolência, a intolerância e a inveja. O amor é o amor. Pode dizer-se mais? Não é para ser dito, mas para ser sentido." - Ramiro Calle
terça-feira, 4 de julho de 2017
"Nas relações não comerciais existe pouco para negociar. Não acredito nos casais cujo relacionamento assenta na ideia de sacrificar aquilo de que cada um mais gosta apenas para agradar ao outro. Em troca, este deve aceitar abrir mão do que mais aprecia. Não acredito que as relações inter-humanas possam ser avaliadas por aquilo que somos capazes de ceder, mas sim por aquilo que somos capazes de partilhar.
Não consigo gostar do enunciado quase mercantilista mas universalmente aceite de «hoje por ti, amanhã por mim». Em primeiro lugar, porque preferiria que fosse possível ser hoje por ti e amanhã e depois também (porque não?). Em segundo lugar, porque aquilo que dou a alguém não é passível de ser negociado (a verdadeira ajuda assenta na gratuitidade daquilo que dou). Por fim, em terceiro lugar, porque se algum dos dois decide ceder generosa e desinteressadamente algo que possui, espero que a educação que recebeu o tenha ensinado a diferenciar essa atitude dos seus investimentos comerciais e que perceba que já está a receber uma recompensa pela sua acção. Ninguém deverá recompensar-me por aquilo que dou com o coração. A recompensa que recebo consiste em poder dar e em não haver nada para negociar, nem no Céu nem na Terra.
Isto adquire um certo dramatismo quando, no consultório dos terapeutas, nos quartos ou em salas, os casais discutem a possibilidade de negociar maneiras de ser e de agir. Estratégias para ceder de maneira artificial em troca de um gesto equivalente do outro, o que significa deixar de ser aquilo que sou, tendo como argumento forçar alguém a renunciar àquilo que é. Isso é horrível!
Nem sempre a realidade da vida é equitativa e em geral é mesmo bastante injusta. Mas esse facto não deveria desmoralizar-nos e muito menos ser usado para justificar outras injustiças mais «humanas». Pelo contrário, deveria tornar mais profundo o compromisso vital de cada pessoa com aquilo que a rodeia. O ser humano, que é gregário por natureza, deve agir, legislar e governar tendo presente a negociação interior entre aquilo que deseja e a realidade, e entre os seus interesses e os dos outros. Poderá parecer óbvio, mas a tarefa mais importante é também extremamente difícil: consiste em tentar resolver os desequilíbrios que decorrem da repartição desigual de recursos e de possibilidades entre as pessoas. Baseia-se em lutar de igual modo pela nossa felicidade e pela dos outros." - Jorge Bucay
Tu que estás a ler isto, sim tu, arranja uma vida e vive-a...
segunda-feira, 3 de julho de 2017
"A única forma como poderíamos justificar o facto de nos encontrarmos sentados, imóveis, numa cabana triangular nos bosques do norte... era se tivéssemos acabado de passar por um divórcio realmente complicado." Ian Frazier
"As palavras do autor constituem uma queixa: ele tinha de ter uma justificação para não fazer nada. Ele e os amigos não podiam estar sem fazer nada pelo simples facto de assim o desejarem; tinham de ter uma boa razão, tal como um divórcio! Dessa forma, já podiam justificar essas férias, ou "a perda de tempo valioso" - pois possuíam uma desculpa! Tinham acabado de passar por uma situação dolorosa, e as pessoas hesitariam em criticá-los. O seu sentimento de culpa seria mínimo.
Mas, sabiamente, ignora esse tipo de raciocínio e concede autorização a ele mesmo - sem qualquer necessidade de justificação - para não fazer nada.
As auto-restrições desnecessárias e a falsa sensação de culpa sobrecarregam a grande maioria de nós e afastam-nos dos momentos de paz por que ansiamos. Momentos de sossego para estar a sós não são um requinte opcional; tal como não se destinam apenas aos reformados, aos preguiçosos ou àqueles que têm uma propensão natural para isso. São para todos. E trata-se de um tempo valioso e bem empregue.
E, acima de tudo, não precisa de outra justificação para além do seu nobre objectivo: ficar mais desperto, recordando aquilo de que precisa de se lembrar sobre si e sobre a sua vida." - David Kuntz
domingo, 2 de julho de 2017
"Uma das características das pessoas sãs e fortes é que se dedicam com paixão a tudo o que têm em mãos. Fazem-no, contudo, com lucidez. Sem receio. Desfrutam do seu trabalho e das suas paixões, do cuidado da sua saúde e da dos seus filhos, mas sem se preocuparem. Vivem a vida como se de um jogo se tratasse.
E isso só é possível porque têm muito presente, num plano filosófico, que o essencial é essencial e que tudo o resto são acréscimos sem importância. Sabem muito bem que o essencial é comer, beber e amar a vida e os demais. Desta forma, são capazes de empreender negócios, viagens, relações e todo o tipo de projectos com a atitude de um menino que joga à bola com os amigos. Se conseguirmos um determinado resultado, excelente. Se não o conseguirmos, excelente também. O importante é o processo, a diversão em cada momento.
O felicismo consiste em fazer aquilo que mais lhe agrada em cada momento da sua vida sem pensar demasiado no assunto. E, sobretudo, jogar ao jogo da vida sem o dotar dessa transcendência louca que hoje em dia impregna tudo o que fazemos.
É bom ter desejos, metas e objectivos. Todas as pessoas sãs, incluindo as crianças, sentem o impulso de empreender determinadas tarefas. Mas o mais lógico é que estes projectos sejam vividos como se de um jogo se tratasse.
Se partirmos do pressuposto de que, para sobreviver, as únicas coisas de que precisamos são comida e água, conclui-se que não é necessário fazer mais nada. Podemos trabalhar, esforçar-nos em múltiplas frentes e empresas, mas sempre tendo em consideração que tudo se trata de divertimento: nada que suponha o fim do mundo; nada que suponha o seu princípio!
É bom ter desejos, mas cuidado para não os tornarmos necessidades imperiosas porque esse é um defeito de fabrico do ser humano: transformar simples desejos em necessidades loucas a qualquer altura. Se nos habituamos a beber uma água de determinada marca todos os dias, é muito provável que passemos de dizer: «Adoro a Água da Serra da Estrela» para gritar: «Preciso de Água da Serra da Estrela! Senão não consigo apreciar a refeição!»
Assim é o ser humano. A filosofia budista refere-se a este fenómeno como o «apego», os psicólogos cognitivos, como «conversão de desejos em necessidades absolutas». Só quando aprendermos a não nos apegarmos às coisas nem às pessoas poderemos começar a desfrutar realmente delas." - Rafael Santandreu
sábado, 1 de julho de 2017
"As nossas mentes têm duas posições: olhar para fora e olhar para dentro.
Olhemos agora para dentro.
É considerável a diferença que esta pequena alteração na orientação pode fazer, conseguindo até inverter os desastres que ameaçam o mundo. Quando um número muito maior de pessoas conhece a natureza da sua mente, conhecerá também a gloriosa natureza do mundo em que vive e debater-se-á corajosa e insistentemente para o preservar. É interessante que, em tibetano, a palavra para «budista» seja nangpa, que significa qualquer coisa como «aquele que se recolhe no seu íntimo», ou seja, alguém que procura a verdade não no exterior, mas no interior da natureza da mente. Todos os ensinamentos e instruções do budismo se concentram numa única questão: olhar para a natureza da mente, o que nos liberta do medo da morte e ajuda a compreender a verdade da vida.
Olharmos para dentro exigirá de nós uma grande subtileza e coragem, uma vez que implica uma mudança completa na nossa atitude perante a vida e perante a morte. Estamos tão condicionados a olhar para fora de nós mesmos que perdemos quase por completo o acesso ao âmago do nosso ser. Sentimo-nos aterrorizados em olhar para o interior de nós próprios, porque a nossa cultura não nos deu qualquer ideia do que poderemos encontrar. Somos até mesmo capazes de pensar que, se o fizermos, corremos o risco de enlouquecer. Este é um dos últimos e dos mais astutos artifícios do ego para nos impedir de descobrir a nossa verdadeira natureza.
Então tornamos as nossas vidas tão agitadas que eliminamos o mais pequeno risco de olharmos para dentro de nós mesmos. Até a simples ideia de meditação consegue assustar as pessoas. Quando ouvem as palavras «sem ego» ou «vazio», pensam que experimentar estes estados se assemelha a ser atirado porta fora de uma nave espacial, flutuando eternamente num vazio escuro e arrepiante. Nada pode estar mais longe da verdade. Todavia, num mundo que se dedica à distracção, o silêncio e a tranquilidade apavoram-nos, e nós protegemo-nos deles com ruído e actividades frenéticas. Olhar para a natureza da nossa mente é a última coisa que nos atreveríamos a fazer.
Há alturas em que penso que não queremos colocar nenhuma verdadeira pergunta acerca de quem somos simplesmente porque temos medo de descobrir que existe uma outra realidade para além desta. Que impacto teria esta descoberta perante o modo como temos vivido? Como reagiriam os nossos amigos e colegas ao que passaríamos a saber? O que faríamos nós com o novo conhecimento? Com o conhecimento vem a responsabilidade. Por vezes, mesmo quando a porta da cela se abre escancaradamente, o prisioneiro prefere não escapar." - Sogyal Rinpoche
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